O primeiro voo: Festival Almenara
- Gabriel Figueiró

- 28 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: há 1 dia
Antes de atravessar o sul de Portugal, a Andorinha fez o seu primeiro voo até ao sul de Espanha.
A participação no Festival Almenara, em Vejer de la Frontera, marcou um momento muito especial para o projeto Andorinha – Biblioteca de Gente em Movimento. Foi a primeira vez que testámos, em contexto real, a metodologia das bibliotecas humanas aplicada à temática da migração.
O festival aconteceu na Finca Catalina, casa do Proyecto Almenara, uma iniciativa dedicada à permacultura, à regeneração da terra, à aprendizagem comunitária e à criação de futuros mais sustentáveis. Para nós, este lugar tinha uma ligação especial: o Co Estar já tinha desenvolvido ali uma comunidade de aprendizagem alguns anos antes, e essa relação abriu caminho para que o Andorinha fosse convidado a integrar a programação do festival.
Estar em Andaluzia também tinha um significado simbólico. A paisagem, o clima e a história daquele território conversam de muitas formas com o Algarve. Era a fronteira mais próxima do nosso lugar de partida, mas, ao mesmo tempo, já era outro país, outra língua, outro contexto. Começar ali um projeto sobre migração parecia quase inevitável: estávamos, nós também, fora do ninho.

Durante o festival, apresentámos a nossa primeira sessão de biblioteca humana. Duas histórias foram partilhadas: as de Marianne e Lexi. Através delas, abrimos conversas sobre deslocamento, pertença, adaptação, fronteiras culturais e os muitos sentidos de casa.
Foi também ali que a metáfora da andorinha ganhou uma nova camada. Em espanhol, as andorinhas são chamadas de golondrinas. Escutar esse nome, naquele território, fez-nos sentir que o projeto começava a ganhar asas noutra língua. Uma pequena revoada até ao sul de Espanha para iniciar um voo importante nas nossas vidas.
O Almenara Festival reunia oficinas, música, dança, alimentação, práticas de cuidado, permacultura, construção natural, arte e iniciativas locais ligadas à regeneração. Dentro desse ambiente, a nossa biblioteca humana encontrou um espaço fértil: um festival onde as pessoas já estavam disponíveis para aprender, partilhar, escutar e imaginar outros futuros possíveis.
Esta primeira experiência trouxe muitas aprendizagens. Percebemos que a biblioteca humana precisava de cuidado, ritmo e presença. Aprendemos a importância de definir melhor os papéis dentro da equipa: quem acolhe, quem facilita, quem acompanha as histórias, quem cuida do tempo, quem regista imagem e som, quem observa o processo e quem garante que o espaço se mantém seguro para quem partilha e para quem escuta.
Também percebemos que a migração não era um tema limitado ao nosso território. As histórias que queríamos escutar no Algarve encontravam eco noutros lugares do sul europeu. As perguntas sobre pertença, deslocamento e casa atravessavam fronteiras, línguas e paisagens.
A sessão contou ainda com o apoio dos voluntários Henrique Romano e Alice Malingri, que ajudaram na preparação do espaço, no registo audiovisual e na recolha de materiais para o minidocumentário e para as redes sociais. A presença deles foi essencial para que a equipa pudesse experimentar, observar e aprender com mais atenção.
O Festival Almenara foi, para nós, mais do que uma primeira apresentação pública. Foi um laboratório vivo. Um ensaio. Um começo.
Ali, a Andorinha saiu pela primeira vez do ninho e descobriu que a sua rota poderia ser construída a partir dos encontros. Cada história escutada, cada conversa iniciada e cada dificuldade prática ajudaram-nos a compreender melhor o que o projeto poderia ser.
Foi no sul de Espanha que começámos a perceber que esta biblioteca não seria apenas uma instalação ou uma metodologia. Seria um corpo em movimento, feito de pessoas, escutas, erros, cuidado e presença.
O primeiro voo tinha começado. Financiamento
O Andorinha — Biblioteca de Gente em Movimento é financiado pelo Corpo Europeu de Solidariedade, programa da União Europeia que apoia iniciativas de juventude e impacto comunitário.
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